Fisting e hepatite

Fisting anal e hepatite: risco, proteção e vacina

Se no fisting há um tema de saúde que se deve mesmo levar a sério, é a hepatite, mais precisamente a hepatite C. Enquanto o VIH perdeu muito do seu terror graças à medicina moderna, a hepatite C continua a ser um tema real na cena do fisting, porque se transmite através de exatamente aquilo que o fisting pode produzir: quantidades ínfimas de sangue. A boa notícia: com o conhecimento certo proteges-te de forma eficaz, e até uma infeção é hoje curável na grande maioria dos casos. Este artigo explica-te as diferenças entre as hepatites A, B e C, como ocorre a transmissão no fisting e o que podes fazer em concreto.

1.1 Hepatites A, B e C: o resumo rápido

“Hepatite” significa à partida apenas inflamação do fígado, e vários tipos de vírus a provocam. Para a cena do fisting três são relevantes, e distinguem-se nitidamente em transmissão, evolução e proteção:

TipoTransmissãoEvoluçãoVacina?Curável?
Hepatite Afecal-oral (vestígios de fezes)nunca se torna crónica, saraSimsara sozinha
Hepatite Bsangue, secreções, sexualnos adultos quase sempre autorresolutiva, cerca de 10% crónicaSimaguda quase sempre; crónica controlável, raramente totalmente curável
Hepatite Cpredominantemente sanguemuitas vezes crónica (50-80%)NãoSim, em mais de 95% dos casos

A conclusão mais importante para a prática: contra A e B podes vacinar-te. Contra C não, mas hoje é quase sempre curável. E é justamente C o protagonista no fisting, porque passa através do sangue.

1.2 Porque a hepatite é relevante no fisting

No fisting formam-se facilmente pequenas lesões da mucosa intestinal, muitas vezes tão minúsculas que não se veem nem se sentem. Estas microrrasgaduras são a porta de entrada para os agentes patogénicos transmitidos pelo sangue. Se o sangue de uma pessoa infetada entra em contacto com esta mucosa irritada ou com pontos abertos na mão, uma transmissão é possível.

Torna-se particularmente delicado em duas situações: com o lubrificante partilhado (várias mãos no mesmo frasco) e na troca de parceiro sem luvas frescas. São ambas vias de transmissão clássicas, que se evitam por completo com alguma disciplina.

2.1 Hepatite C: o verdadeiro tema no fisting

A hepatite C transmite-se predominantemente através do sangue e só raramente por outras vias. Isso faz dela a questão central da hepatite no fisting, porque o contacto com sangue é exatamente o cenário que aqui pode ocorrer. Em várias grandes cidades houve no passado verdadeiros surtos de hepatite C na cena do fisting e do chemsex.

Uma hepatite C aguda evolui muitas vezes sem sintomas nítidos, o que é traiçoeiro, porque uma infeção não notada torna-se crónica em 50 a 80 por cento dos casos. Uma hepatite C crónica pode danificar o fígado durante anos e, no pior dos casos, levar a cirrose ou cancro do fígado. Por isso a deteção precoce através de testes regulares é tão importante.

2.2 Como a hepatite C se transmite no fisting

O vírus da hepatite C é surpreendentemente resistente e pode permanecer infecioso durante algum tempo fora do corpo. As vias de transmissão relevantes no fisting:

  • Lubrificante partilhado: se uma mão com vestígios de sangue invisíveis mexe no frasco do lubrificante, o vírus pode aí parar e ser transmitido na vez seguinte. A via de transmissão mais importante e mais subestimada.
  • Luvas que não são trocadas: o sangue de um parceiro chega ao seguinte através da luva.
  • Brinquedos sexuais partilhados sem limpeza ou troca de preservativo.
  • Contacto direto sangue-mucosa em caso de lesões abertas.

A lógica de proteção decorre quase por si: frasco de lubrificante individual por pessoa, luvas frescas por parceiro, brinquedos com preservativo e troca. Soa a contabilidade, mas é a diferença entre despreocupação e sequelas tardias.

2.3 A hepatite C é curável, mas a prudência mantém-se

Eis a boa notícia, e é mesmo boa: a hepatite C é hoje curável em mais de 95 por cento dos casos. Há cerca de dez anos existem os chamados antivirais de ação direta (AAD), que combatem o vírus de forma dirigida. A terapia dura em regra cerca de oito semanas, toma-se em forma de comprimidos e é bem tolerada, um enorme avanço face ao anterior tratamento com interferão, rico em efeitos secundários.

Ainda assim, a hepatite C não é motivo de despreocupação. Uma infeção superada não deixa qualquer imunidade, podes reinfetar-te. O tratamento é além disso suficientemente caro e penoso para que a prevenção seja claramente preferível à cura. E quanto mais tempo uma infeção fica por detetar, mais danos pode causar no fígado. A curabilidade não substitui, portanto, a proteção, é a rede de segurança por detrás dela.

3.1 Hepatite B: vacinável e quase sempre autorresolutiva

A hepatite B transmite-se através de sangue, secreções e contactos sexuais e é por isso também relevante no fisting. A diferença decisiva face à hepatite C: contra a hepatite B existe uma vacina eficaz.

Nos adultos uma infeção por hepatite B sara sozinha em cerca de 90 por cento dos casos e deixa então uma imunidade para toda a vida. Em cerca de 10 por cento torna-se crónica. Uma hepatite B crónica é hoje bem controlável com medicamentos, mas quase nunca totalmente curável, mais uma razão para aproveitar a vacina enquanto ainda não se está infetado. Efeito secundário prático: a vacina contra a hepatite B protege ao mesmo tempo da hepatite D, que só pode surgir junto com a B.

3.2 Hepatite A: fecal-oral e vacinável

A hepatite A é o caso particular desta série: transmite-se não através do sangue mas por via fecal-oral, ou seja, através de vestígios ínfimos de fezes que durante as práticas sexuais anais podem chegar à boca. Menos o tema no fisting em si, mas sem dúvida relevante no contexto global do sexo anal.

A boa notícia: a hepatite A quase nunca se torna crónica e sara em regra sem sequelas. Pode, contudo, comprometer sensivelmente o estado geral durante semanas. Também contra a hepatite A existe uma vacina, e várias grandes cidades viram nos últimos anos surtos de hepatite A entre HSH, mais uma razão para refrescar a proteção vacinal.

4.1 Vacina contra a hepatite A e B

A prevenção mais eficaz contra dois dos três tipos de hepatite relevantes é o mais simples possível: vacinar-se. As recomendações de saúde portuguesas preveem a vacina contra a hepatite A e B em especial para os homens que fazem sexo com homens, e em geral para as pessoas com um comportamento sexual de risco de infeção acrescido.

Para este grupo a vacinação é disponibilizada pelo SNS (a hepatite B faz parte do Programa Nacional de Vacinação) e é acessível no centro de saúde ou no CheckpointLX. As vacinas existem em separado ou como prática vacina combinada contra A e B numa só. Após a vacinação de base há em regra uma proteção de longa duração, muitas vezes para toda a vida. Quem não tem a certeza de estar vacinado ou já imune pode esclarecê-lo com uma análise ao sangue (anticorpos) no médico.

Contra a hepatite C não existe até hoje qualquer vacina, a variedade do vírus dificulta o desenvolvimento. Aqui fica-se pelas medidas de proteção mecânicas.

4.2 Medidas de proteção no fisting

Em resumo, as medidas concretas que reduzem o risco de hepatite no fisting:

  • Vacina contra a hepatite A e B, a salvaguarda de base, de uma vez por todas.
  • Recipiente de lubrificante individual por pessoa, não em comum a partir de um só frasco, o ponto mais importante contra a hepatite C.
  • Luvas frescas por parceiro e abertura do corpo, troca sem exceção.
  • Cobrir os brinquedos com preservativo e trocá-lo entre parceiros ou limpá-los a fundo.
  • Fazer uma pausa em caso de feridas abertas, na mão como na zona anal.
  • Fazer testes com regularidade, ver a secção seguinte.

Mais sobre as medidas de proteção gerais no nosso artigo sobre Safer Fisting e sobre a preparação em Higiene & Preparação.

5.1 Fazer testes: com regularidade e honestidade

Porque justamente a hepatite C evolui muitas vezes sem sintomas, fazer testes com regularidade é a única forma fiável de detetar uma infeção cedo. Para as pessoas sexualmente ativas com parceiros variáveis, é aconselhável um teste pelo menos uma vez por ano, mais vezes em caso de risco mais elevado.

Testes para a hepatite (e outras IST) podes fazê-los no CheckpointLX e nos centros de IST do SNS, em muitos casos gratuitos e anónimos; o GAT e a Abraço são referências sem juízos familiarizadas com o tema. Uma hepatite C detetada cedo trata-se bem hoje, uma detetada tarde teve mais tempo para causar danos. Mais sobre temas relacionados nos nossos artigos sobre Fisting & VIH e Fisting & IST.

6.1 Mitos sobre a hepatite e o fisting

MitoO que é mesmo verdade
“Contra a hepatite pode vacinar-se por completo.”Só em parte. Contra a hepatite A e B há vacinas, contra a hepatite C não. Esta última é, em contrapartida, hoje curável em mais de 95% dos casos.
“Se tomo a PrEP, estou também protegido da hepatite.”Falso. A PrEP protege exclusivamente do VIH. Contra a hepatite só ajudam a vacina (A/B) e a proteção mecânica (C).
“A hepatite C é uma sentença de morte.”Já não há muito. Com os modernos medicamentos AAD, a hepatite C é curável na grande maioria dos casos em cerca de oito semanas.
“Uma vez tida a hepatite C, fico imune.”Falso. Uma hepatite C superada não deixa qualquer imunidade. Podes reinfetar-te.
“O lubrificante limpo vê-se.”Falso. As quantidades de sangue necessárias a uma transmissão muitas vezes não são percetíveis a olho nu. Por isso um frasco individual por pessoa.
“A hepatite B tem sempre de ser tratada.”Não necessariamente. Nos adultos sara quase sempre sozinha. Só as evoluções crónicas precisam de um tratamento medicamentoso.

7.1 Perguntas frequentes

Que hepatite é a mais importante no fisting?

A hepatite C, porque se transmite através do sangue e no fisting podem entrar em jogo quantidades ínfimas de sangue. Contra a hepatite A e B pode vacinar-se, contra C não, mas C é hoje quase sempre curável.

Posso vacinar-me contra a hepatite C?

Não. Contra a hepatite C não existe até agora qualquer vacina. A proteção vem só de evitar o contacto com sangue: recipiente de lubrificante individual, luvas frescas por parceiro, brinquedos com preservativo.

A hepatite C é curável?

Sim, em mais de 95 por cento dos casos. Os modernos antivirais de ação direta (AAD) combatem o vírus de forma dirigida, a terapia dura quase sempre cerca de oito semanas e é bem tolerada. Uma cura não deixa, porém, qualquer imunidade, uma reinfeção é possível.

Como transmito mais provavelmente a hepatite C no fisting?

A via mais frequente e mais subestimada é o lubrificante partilhado: se várias mãos mexem no mesmo frasco, vestígios de sangue invisíveis podem transmitir o vírus. Por isso um recipiente de lubrificante individual para cada pessoa.

O SNS cobre a vacina contra a hepatite?

Para os homens que fazem sexo com homens, e em geral para as pessoas com um risco de infeção sexual acrescido, a vacina contra a hepatite A e B é disponibilizada pelo SNS no centro de saúde ou no CheckpointLX. Em caso de dúvida, perguntar ao médico ou ao centro de saúde.

Com que frequência devo fazer o teste da hepatite?

Para as pessoas sexualmente ativas com parceiros variáveis, pelo menos uma vez por ano, mais vezes em caso de risco mais elevado. Justamente a hepatite C evolui muitas vezes sem sintomas, pelo que fazer testes com regularidade é a única forma fiável de deteção precoce.

Um preservativo nos brinquedos protege da hepatite?

Reduz nitidamente o risco se o preservativo for trocado entre parceiros. Os brinquedos devem de qualquer forma ser limpos entre pessoas diferentes ou cobertos com um preservativo fresco.

Sobre os autores

Este guia foi elaborado pela equipa de redação de fist.club, a revista online e portal de conhecimento de Fist Club Europe e.V., uma associação com sede em Berlim. Os conteúdos baseiam-se na experiência prática dos nossos workshops, na troca com formadores e membros da comunidade e na literatura médica e nas recomendações das autoridades de saúde portuguesas (DGS) e das associações de saúde sexual. Este artigo não substitui aconselhamento médico.

Mais sobre nós: A associação · Workshops & Seminários · Tornar-se sócio

Este guia não substitui aconselhamento médico. Em caso de sintomas ou incertezas: consulta um médico. Artigos complementares: Fisting para principiantes, Safer Fisting, Higiene & Preparação, Fisting & VIH, Fisting & IST, Glossário.